Dia 8

Ilhéus por um dia

Novo dia, novo destino: Ilha de Moçambique, o paraíso para quem aprecia a patine da decadência arquitectónica e uma vivência simples, suada e salgada. Vindos de Nampula só parámos na Igreja de Carapira e num riacho onde vários miúdos tomavam banho. Ao percorrermos a ponte estreita que une o continente à ilha apercebemo-nos que vários pescadores estavam a quilómetros da costa, mas em pé, com pé e sem barco.

Esta pequena cidade-ilha, único património da Unesco de Moçambique, foi a capital da África Oriental Portuguesa, entre 1570 e 1898, ano em que cedeu o título a Maputo. A casa Helpo da ilha é uma vivenda com pátio interior e uma decoração algo disléxica. A sala de jantar tem uma mesa de mármore falso e cadeiras de veludo negro com rebordos platinados e vários dossiers de trabalho, na sala de estar estão três sofás de pele coçados, ideais para se colarem aos corpos suados, e nos quartos encontramos camas austeras com mosquiteiros. Por aqui a atividade da Helpo não inclui decoração de interiores, mas sim um centro de atividades infantis (estudo acompanhado, artes plásticas, artes dramáticas e outras iniciativas) e três escolinhas que promovem o ensino pré-escolar, em parceria com o cluster da Cooperação Portuguesa e eventuais atores famosos de visita.

Almoçámos no restaurante Karibu onde entrevistámos três crianças com uma jinga fora do normal. Julinho é um rapaz de 14 anos que tem um smart phone e quer ser arquiteto. No decorrer da conversa diz que aprecia o trabalho de José Forjaz, autor de vários projectos no país, incluindo a casa da sua Tia Clara, que vive em Maputo e apadrinhou Julinho. Falámos também com Nuhi, 15 anos, outro candidato a arquitecto, apadrinhado por duas madrinhas da Helpo. Tanto Nuhi como Julinho têm postais desenhados por si à venda numa loja local. Para conseguir alguns meticais extra Julinho faz tours turísticos pela ilha e Nuhi vende uns bolinhos chamados gulamo. Ikbal, de 7 anos, foi o terceiro entrevistado do almoço, a mãe trabalha num supermercado e o pai é psicólogo, mas o filho ainda não escolheu uma profissão futura. E presidente da república? “Não. Ser presidente é muito arriscado” remata Julinho.

Entretanto apareceram vendedores de peixe e marisco e João Salavessa, vitivinicultor na região de Castelo Branco e diretor da faculdade Ciências Sociais e Humanas da Universidade Lúrio, que nos levou até à Sala Girassol, onde estava marcada uma pequena conversa sujeita ao tema ‘Futuros Presidentes e Redes Sociais’. Os palestrantes, à falta de melhor, fomos nós, Luís Mileu e Ricardo Henriques, com uma introdução de Carlos Almeida, o coordenador nacional da Helpo que foi ‘obrigado’ a criar uma conta de Instagram há três dias.

Passo seguinte, dar um verdadeiro passeio a pé (o primeiro da viagem) para aproveitar a luz do fim do dia. Entre as ruínas de uma casa, encontrámos uns miúdos a praticar capoeira. Nas traseiras estava a decorrer um jogo de futebol, que por vezes parava para discussões entre jogadores. Um rapaz que andava de um lado para o outro e aparentava ser árbitro, afinal era o comentador in loco. “A bola está em Fininho que passa para Sayde e é gooooooooolo! Golo! Golo! Golo!”

Perdi-me dos meus companheiros de viagem, mas rapidamente arranjei outros dois, Abdul e Abdul. Estes miúdos fizeram-me perguntas e companhia na minha caminhada. À terceira frase, Abdul já dizia “leva-me contigo para Portugal”, à oitava, convidou-me para conhecer a sua família.

A noite caiu e foram poucas as luzes que se acenderam no bairro de Macuti. Quando a Fortaleza de São Sebastião foi construída pelos portugueses foi deste local que retiraram a pedra. Passados cinco séculos e passadas as chuvas, estas casas precárias ficam sempre alagadas. No Macuti começaram a juntar-se mais crianças e já tinha um séquito de seis crianças atrás de mim. Após várias curvas à esquerda e à direita, em ruelas estreita e escuras, Abdul apontou para umas silhuetas sentadas no chão, à porta de uma casa sem mármores, veludos ou sofás em pele. Foi assim que conheci e cumprimentei a sua família.

Depois de encaminhar os pedidos de cadernos, maçarocas e óculos escuros para a próxima segunda-feira, no escritório local da Helpo, despedimo-nos com repetidos apertos de mão e regressei ao lado da ilha onde o m2 tem mais likes e hashtags.

Nota: Obrigado aos proprietários do Restaurante Relíquias por nos deixarem trabalhar no seu espaço muito para lá da hora de fecho.