Dia 7

A arte de bem receber

Entre o trabalho de ontem e o de hoje conseguimos visitar o Museu de Etnografia de Nampula, o único museu nacional moçambicano fora de Maputo. A exposição tem uma série de artefactos muito curiosos divididos por etnias e temas, mas a informação sobre as peças peca por ser demasiado genérica. O recepcionista, que acumulava ainda os cargos de vendedor de bilhetes, responsável pela loja do museu, segurança e guia, destrancou-nos as portas dos dois andares.

“Passatempo muito apreciado são os convívios onde se bebe, come e dança. Tocar alguns instrumentos musicais (em especial de corda, aerofone e lamelofones) é também um passatempo.” – lia-se na legenda de Jogos, Passatempos e Fumo. Na secção de rituais de iniciação o nosso guia apontou para uma pedra e informou “é um medicamento forniqueiro, para limpar as feridas”. No exterior do museu uma série de artistas esculpiam e vendiam a sua arte, quase igual à que encontrámos no interior.

A arte solidária da Helpo espalha-se por 37 centros de intervenção em Moçambique, que apoiam cerca de 16.000 crianças e jovens. Estes centros incluem escolinhas, escolas primárias, ludotecas, bolsas de estudo para o ensino secundário e um infantário provincial.

Esta manhã tínhamos no menu a visita a cinco centros de intervenção espalhados por três aldeias, Mahunha, Ilocone e Munimaca, todos na província de Nampula. Desta vez a viagem foi na companhia de Zainal, o construtor responsável pelas últimas obras de construção de salas de aula. Inês Faustino (veterinária e diretora de programa de Nampula) e Josefina Marau (médica e voluntária de curta duração) estavam à nossa espera na vila de Murrupula, bem como Sebastião (professor, animador e motard radical). Por causa das chuvas a estrada habitual ficou intransitável e Sebastião, numa moto de pneu fininho, foi à nossa frente, a derrapar na areia, para nos indicar o acesso alternativo às aldeias.

Nada nos tinha preparado para a recepção de Mahunha. Mães, pais, professores, anciãos e crianças mais velhas, todos em fila, começaram a cantar uma canção de boas-vindas, acompanhada de palmas e bater do pé. De seguida apertámos as cerca de 40 mãos direitas que se estenderam. Debaixo de uma cobertura com cadeiras para nós, bancos para os homens e esteiras para as mulheres e crianças, o professor Acácio fez as apresentações e leu um relatório.

Depois entrevistámos Estefânia Velasco, uma menina que não sabia a idade (mas o cunhado apareceu para dizer que tinha 10) mas gostava de ser professora. Porque sabíamos que ela gosta de cantar, insistimos “não preferes ser cantora?” “As professoras também são cantoras” disse ela.

Partimos para a próxima comunidade, mas Inês e Josefina ficaram para trás com outra missão, a distribuição mensal de sabão e alimentos para as papinhas (açúcar arroz, óleo, farinha de milho). Inês Faustino está com a Helpo há dois anos e explicou-nos o seu chamamento para o trabalho solidário assim “temos a sorte de nascermos onde nascemos. Achei que devia dar aos outros um bocadinho do que tive. Recebi de graça, dou de graça.” Quanto ao curso de veterinária só lhe é útil ao final do dia, quando, por hobby, dá consultas aos cães e gatos de Nampula.

Na escolinha de Ilocone fomos mais uma vez recebidos de forma solene. O animador Celso tinha a típica e impecável bata branca dos professores, mas desta vez uma pequena serpente verde bordada no bolso denunciou a origem farmacêutica da sua indumentária. Aqui entrevistámos Eva Bonito, uma criança de 18 anos com dois filhos. Quando lhe perguntei porque parou de estudar, ela riu-se e as duas razões, agarraram-se um pouco mais a ela.
Em Munimaca foi tudo mais rápido, mas o levantamento do nosso drone deixou os miúdos estupefactos. Despedimo-nos de Sebastião, com vontade de lhe oferecer uma moto de todo-o-terreno, e voltámos para a estrada. Os caminhos entre as escolas foram dos mais acidentados da nossa viagem, envolvidos por mato e campos de milho, com casas aqui e ali, umas de tijolo e outras de colmo. Se tudo correr bem Mahunha e Munimaca terão em breve três novas salas, respectivamente, construídas pela Helpo, Zainal e mão-de-obra voluntária.

No final do dia os dois 4X4 da Helpo regressaram com oferendas, duas galinhas, dois cachos XXL de bananas, várias abóboras, uma caixa de maçarocas de milho e muitos sorrisos. É trabalho mas parece um convívio onde se bebe, come e dança.