Dia 11

Trabalho de Campo

Hoje o responsável das letras acordou com um treçolho e o homem da fotografia levantou-se com uma dor lombar. Talvez sejam os corpos a dar aquele sinal “hey, hoje é o último dia de trabalho de campo, ok?!” Felizmente há duas médicas competentes na casa. Já agora, vamos dar entrada na realidade do Hospital Provincial de Nampula, secção de pediatria. A média diária do Hospital é de 30 crianças com diarreia, 60 com malária, 50 com má nutrição, 20 a 30 com doenças respiratórias e outras 30 na pediatria geral, com um bocadinho de tudo. A fonte para estes números não pode ser revelada. Nem sempre há álcool ou soluções iodadas para fazer procedimentos invasivos e o normal é usar-se soro fisiológico. Um dos problemas são os roubos de medicamentos, se não estiverem fechados à chave no gabinete do enfermeiro-chefe, desaparecem. Do lado de fora deste e de outros hospitais os familiares dormem na rua, à espera de novidades, os dias e noites que forem precisos. É normal estarem 3 a 4 crianças por cama (de adulto) e 2 a 3 por berço.

A primeira visita do dia foi à escola primária completa de Matibane, a trinta quilómetros de Nampula, no meio do mato e perto de uma linha de comboio. Foi a primeira vez que vimos uma escola com campo de futebol relvado e balizas regulamentares em ferro. Encontrámos também tabelas de basquetebol, apesar das linhas de três pontos não estarem desenhadas no campo cultivado.

Nesta escola falámos com Pinto Luís, dos poucos meninos com uma pasta profissional para guardar o seu livro de exercícios, Nélcia Zinho, uma menina que adora jogar banana (uma espécie de jogo do mata que implica encher uma garrafa de areia), Mércio Fernando, um rapaz de 14 anos que ambiciona ser director pedagógico, Eunice Estêvão, a adolescente que quer ser doutora, mas não gosta de viver na cidade, e Sitónio Alfane, o primeiro estudante desta viagem a dizer-nos que quer ser maquinista quando for grande.

Próxima paragem: Escola Secundária de Anchilo. Aqui falámos com Maria Agostinho e Gérsia Mário. A primeira tinha 16 anos e muita vergonha, a segunda tinha uma predileção especial por Mukussakame,  actor e humorista já desaparecido que fazia filmes didácticos sobre educação cívica e ambiental.

A última paragem do último dia foi em Napacala, uma escola com direito a bandeira de Moçambique no meio do recreio e uma banca (também chamada de ‘panca’, por causa da troca comum de bês por pês) de snacks. Nesta escola visitámos uma sala de aula recém-inaugurada com apoios de padrinhos portugueses, recolhemos olhares curiosos e poses para a fotografia, despedimo-nos e voltámos a Nampula.

Aproveitemos para ingressar em mais alguns dados. Vivem mais de 6 milhões de pessoas na província de Nampula, 2,5 milhões são estudantes e 40% ainda assistem às aulas sentados no chão. Para ensinar toda esta população estudantil existem cerca de 32 mil professores, uns são mais dedicados do que outros, mas nenhum se dá ao luxo de rejeitar a ajuda externa que garante mais condições para os seus alunos.

Em Nampula, em Cabo Delgado e em todo o país, passo a passo, quilómetro a quilómetro, ludoteca a ludoteca, bolsa a bolsa, os futuros maquinistas, professores, doutores, enfermeiros, médicos, engenheiras electrónicas, empresárias, serralheiros mecânicos e presidentes, estão a caminho.

Os desvios e apeadeiros que eles vão enfrentar serão sociais, culturais, supersticiosos e monetários, entre tantas outros, mas graças à força motriz de muitas mãos solidárias, poderão ser persistentes e ganhar embalo até que um dia irão reparar que a estação que parecia ser terminal, afinal já ficou para trás.