Trabalho de Campo

Hoje o responsável das letras acordou com um treçolho e o homem da fotografia levantou-se com uma dor lombar. Talvez sejam os corpos a dar aquele sinal “hey, hoje é o último dia de trabalho de campo, ok?!” Felizmente há duas médicas competentes na casa. Já agora, vamos dar entrada na realidade do Hospital Provincial de Nampula, secção de pediatria. A média diária do Hospital é de 30 crianças com diarreia, 60 com malária, 50 com má nutrição, 20 a 30 com doenças respiratórias e outras 30 na pediatria geral, com um bocadinho de tudo. A fonte para estes números não pode ser revelada. Nem sempre há álcool ou soluções iodadas para fazer procedimentos invasivos e o normal é usar-se soro fisiológico. Um dos problemas são os roubos de medicamentos, se não estiverem fechados à chave no gabinete do enfermeiro-chefe, desaparecem. Do lado de fora deste e de outros hospitais os familiares dormem na rua, à espera de novidades, os dias e noites que forem precisos. É normal estarem 3 a 4 crianças por cama (de adulto) e 2 a 3 por berço.

A primeira visita do dia foi à escola primária completa de Matibane, a trinta quilómetros de Nampula, no meio do mato e perto de uma linha de comboio. Foi a primeira vez que vimos uma escola com campo de futebol relvado e balizas regulamentares em ferro. Encontrámos também tabelas de basquetebol, apesar das linhas de três pontos não estarem desenhadas no campo cultivado.

Nesta escola falámos com Pinto Luís, dos poucos meninos com uma pasta profissional para guardar o seu livro de exercícios, Nélcia Zinho, uma menina que adora jogar banana (uma espécie de jogo do mata que implica encher uma garrafa de areia), Mércio Fernando, um rapaz de 14 anos que ambiciona ser director pedagógico, Eunice Estêvão, a adolescente que quer ser doutora, mas não gosta de viver na cidade, e Sitónio Alfane, o primeiro estudante desta viagem a dizer-nos que quer ser maquinista quando for grande.

Próxima paragem: Escola Secundária de Anchilo. Aqui falámos com Maria Agostinho e Gérsia Mário. A primeira tinha 16 anos e muita vergonha, a segunda tinha uma predileção especial por Mukussakame,  actor e humorista já desaparecido que fazia filmes didácticos sobre educação cívica e ambiental.

A última paragem do último dia foi em Napacala, uma escola com direito a bandeira de Moçambique no meio do recreio e uma banca (também chamada de ‘panca’, por causa da troca comum de bês por pês) de snacks. Nesta escola visitámos uma sala de aula recém-inaugurada com apoios de padrinhos portugueses, recolhemos olhares curiosos e poses para a fotografia, despedimo-nos e voltámos a Nampula.

Aproveitemos para ingressar em mais alguns dados. Vivem mais de 6 milhões de pessoas na província de Nampula, 2,5 milhões são estudantes e 40% ainda assistem às aulas sentados no chão. Para ensinar toda esta população estudantil existem cerca de 32 mil professores, uns são mais dedicados do que outros, mas nenhum se dá ao luxo de rejeitar a ajuda externa que garante mais condições para os seus alunos.

Em Nampula, em Cabo Delgado e em todo o país, passo a passo, quilómetro a quilómetro, ludoteca a ludoteca, bolsa a bolsa, os futuros maquinistas, professores, doutores, enfermeiros, médicos, engenheiras electrónicas, empresárias, serralheiros mecânicos e presidentes, estão a caminho.

Os desvios e apeadeiros que eles vão enfrentar serão sociais, culturais, supersticiosos e monetários, entre tantas outros, mas graças à força motriz de muitas mãos solidárias, poderão ser persistentes e ganhar embalo até que um dia irão reparar que a estação que parecia ser terminal, afinal já ficou para trás.

Ao virar da esquina

O dia de hoje foi todo ao virar da esquina. De manhã fomos ver Inês Faustino, Josefina Marau e Jacinta Gonçalves darem formação aos animadores Helpo. Aconteceu numa sala da Biblioteca Provincial, onde a O.N.G. apoia a ludoteca. A biblioteca tem o nome e a fotografia de Marcelino dos Santos, poeta e fundador da FRELIMO, que lembra Mr. Miyagi, do filme Karate Kid.

Os animadores são professores que identificam as necessidades dos alunos, canalizam apoios e os ajudam a escrever as cartas aos padrinhos. Neste grupo encontrámos ‘velhos’ conhecidos, como Sebastião, o motard das areias, e Hortênsio, o simpático animador de Teacane. De Josefina já falámos noutro dia, mas é preciso dizer que faz um salame improvisado de Nesquick que põe muitos doceiros num chinelo. Quanto a Jacinta Gonçalves é uma designer reformada que está a meio do seu voluntariado de dois anos. Como qualquer voluntário, Jacinta é pau para toda a obra e para tudo o que sobra, dá formação de práticas pedagógicas, estimula as crianças do infantário com jogos e leituras, organiza o material didáctico, vai a aulas de kizomba e dá show nas pistas de dança.

Ao almoço, Zeferino, o cozinheiro da casa, fez Matapa de Camarão, um prato típico moçambicano que leva leite de coco, amendoim e a verdura mais à mão, folha de mandioca, folha de abóbora, folhas da árvore moringa ou couve. A mulher do chef também trabalha na casa e a filha mais nova de ambos fez hoje um ano de idade. Carinho não é algo que os moçambicanos troquem muito em público, como se pode ver pela fotografia do casal. Quando perguntámos a Zeferino se sabia o que a filha mais velha queria ser quando fosse crescida, respondeu-nos que não, isso são perguntas para a Helpo.

À tarde virámos outra esquina em Nampula e fomos visitar o Infantário Provincial. Adelina Pascoal, ex-freira, e directora recebeu-nos. Atualmente este orfanato tem cerca de trinta crianças, mas com capacidade para cinquenta. Enquanto falámos com algumas delas, Elvis, um bebé que foi tirado à mãe alcoólica quando tinha 2 anos e 3 quilos, estava a acordar no seu berço, atento ao que o rodeava.

Salomão faz 3 anos em Março e faria também um belo presidente. Por enquanto quer ser doutor para poder ter “carro, moto e pialeta (bicicleta)”,  gosta de ver os desenhos animados Super Wings na casa da directora e tem medo da chuva. O pai de Salomão foi um grande caçador e ele parece ter herdado esses genes, porque não tem medo de agarrar tudo o que é bicho. O Salomão ajudou o João, uma criança da mesma idade, a começar a falar. A certa altura, com incentivo da directora, João e Salomão cantaram o hino nacional moçambicano ao meu colo.

Abdul, apadrinhado da Helpo com 21 anos de idade, tem uma história cheia de peripécias. Está quase a começar a trabalhar como serralheiro mecânico na empresa Coscam e tudo se endireitou na sua vida. Para trás ficam uma infância e adolescência atribuladas, com direito a dois meses de vida na rua. Nessa altura Abdul lavou carros para poder comer, mas levou muitas tareias. A diferença entre ter morrido e estar vivo é simples. Alguns delinquentes queimavam os sem-abrigo que ostentavam um símbolo exterior de riqueza chamado saco-cama.

Os que só tinham cartões e cobertores eram poupados. De uma só vez 30 miúdos da rua foram apanhados pela polícia e vieram parar ao orfanato. 29 fugiram pouco tempo depois e só Abdul ficou. Nessa altura aprendeu que podia ter ajuda para estudar, mas isso pagava-se com bom comportamento. Estará aqui outro futuro presidente? Um passo de cada vez, tal como fez e faz a directora Adelina. Em adolescente queria ser irmã, mas caso tal não fosse possível, dizia “vou fazer um quintal e cuidar de crianças”. Quando há cerca de um ano, decidiu fazer o mestrado, o marido saiu de casa, deixando Adelina com duas filhas mais trinta.  Apesar de tudo, a mamã de todas crianças mantém-se muito positiva. “Eu fui muito ajudada. Passei pelas mãos de pessoas que eu não conheço. A única maneira de demonstrar reconhecimento, é fazer o mesmo.” Salomão entretanto apanhou um gafanhoto que serve para meter medo a João e Elvis começa a entoar uma canção.

À noite, vimos muitas esquinas vazias, perto da casa Helpo ou mais à frente, no bairro do Matadouro. As únicas figuras a habitarem as sombras e contraluzes eram os guardas das lojas, os figurinos de montras e os sem-abrigo, uma miscelânea de seres a tentar dormir, a tentar acordar.

Natureza Generosa

A ilha de Moçambique está assente num recife de coral e o seu cartão de cidadão diz que tem 3 quilómetros de comprimento por 400 metros de largura. Numa ponta encontramos a Cidade de Pedra, com muitas ruínas de monumentos e colonialismo, na outra está a Cidade de Macuti, com muita gente e precariedade. Menos de vinte e quatro horas depois de chegarmos a esta pacatez lânguida, pagámos a portagem de saída – 10 meticais – e voltámos a percorrer a ponte estreita que liga ao continente.

Decidimos ir espreitar uma das praias mais bonitas do país, mas o caminho, mais uma vez, foi impróprio para veículos sem tração às quatro rodas, com trinta e cinco quilómetros de terra, lama e areia, e cinco em alcatrão. Em termos geográficos demos a volta à Baía de Mossuril para ficar nas mesmas águas que banham as ilhas de Moçambique, de Sete Paus, de Goa e das Cobras.

Perto do nosso destino começamos a ver as casas de férias construídas nos últimos cinco anos, faziam lembrar o malogrado movimento arquitectónico ‘Fonte da Telha Anos 80’, mas ao chegarmos ao areal em frente ao Restaurante Carrusca, os coqueiros, a areia fina, os azuis que pareciam verdes e os verdes que pareciam azuis, remeteram-nos para o imaginário do paraíso tropical caribenho. Os vendedores de corais, os pescadores de marisco fresco e os três rapazes que estavam a restaurar um barco para um ministro, completavam o cenário de postal da Praia das Chocas.

Após um mergulho de uma hora que dispensa adjectivos, fomos comer o que mar nos quis dar. Perdoem-nos mas a grandiosidade da natureza nunca fica igual nas fotografias nem nas descrições. No restaurante encontrámos Márcia, amiga do nosso Carlos Almeida, antiga madrinha da Helpo (antiga porque entretanto houve uma crise no país) e com um cargo no Governo Distrital do Mossuril. No regresso a Nampula parámos na pequena loja onde Márcia vende um pouco de tudo, extensões de cabelo, uma espécie de azeite que nunca viu azeitonas, pintura original em telas, cadeiras de plástico e preservativos. “Esses daí não vale a pena, não compram camisinha, por isso é que existem os índices de HIV que existem” comentou a pequena empresária e responsável por todos os assuntos políticos relacionados com SIDA no distrito, uma mulher cheia de planos para o futuro. Do outro lado da rua uma oficina de motos reparava a sua moto 4×4.

Repetimos a paragem do dia anterior na Igreja de Carapira que, desta vez, tinha a porta aberta. Lá dentro conhecemos uma freira de Bérgamo, perto de Milão, que está em Moçambique há 52 anos e nos abençoou a viagem.

À beira da estrada continuámos a encontrar muitos dos vendedores – na maioria crianças – que pululam nas regiões de Cabo Delgado e Nampula. Os mais agressivos vendem castanha de caju e põem-se praticamente à frente dos carros com um prato colorido de plástico a servir de semáforo. Passámos verdes, azuis, vermelhos, amarelos e só parámos para comprar atas, um fruto primo da anona que tem feito as nossas delícias, e duas sacas de carvão.

Outros produtos que se podem comprar na comodidade do banco do automóvel incluem coco, banana, abóbora, mel, papaia, piripiri, cana de açúcar, peixe seco, carne fresca, maçarocas de milho, feijão, mandazi (entre outros bolos), amendoim, ovos cozidos, camarões-tigre, galinhas vivas, sacos de sal, montes de areia gigantes, carregamentos de telemóvel, e já nas ruas de Nampula, fios de borracha, chinelos e a carne fresca mais antiga do mundo.

Segundo dados da wikipédia, nos E.U.A. existem 797 veículos automóveis (motos não incluídas) para cada 1000 pessoas, em Portugal são 548 para 1000, na África do Sul são 165 para 1000 e em Moçambique são 12 para 1000, à frente, por um veículo, da Coreia do Norte. Aos olhos de quem anda quilómetros a pé com o sustento equilibrado no cocuruto, para todas as crianças que à beira das vias principais vendem o que a natureza dá, os automóveis que passam não são transportes, são ilhas de riqueza com quatro rodas e uma oportunidade de serem generosos com eles.

Ilhéus por um dia

Novo dia, novo destino: Ilha de Moçambique, o paraíso para quem aprecia a patine da decadência arquitectónica e uma vivência simples, suada e salgada. Vindos de Nampula só parámos na Igreja de Carapira e num riacho onde vários miúdos tomavam banho. Ao percorrermos a ponte estreita que une o continente à ilha apercebemo-nos que vários pescadores estavam a quilómetros da costa, mas em pé, com pé e sem barco.

Esta pequena cidade-ilha, único património da Unesco de Moçambique, foi a capital da África Oriental Portuguesa, entre 1570 e 1898, ano em que cedeu o título a Maputo. A casa Helpo da ilha é uma vivenda com pátio interior e uma decoração algo disléxica. A sala de jantar tem uma mesa de mármore falso e cadeiras de veludo negro com rebordos platinados e vários dossiers de trabalho, na sala de estar estão três sofás de pele coçados, ideais para se colarem aos corpos suados, e nos quartos encontramos camas austeras com mosquiteiros. Por aqui a atividade da Helpo não inclui decoração de interiores, mas sim um centro de atividades infantis (estudo acompanhado, artes plásticas, artes dramáticas e outras iniciativas) e três escolinhas que promovem o ensino pré-escolar, em parceria com o cluster da Cooperação Portuguesa e eventuais atores famosos de visita.

Almoçámos no restaurante Karibu onde entrevistámos três crianças com uma jinga fora do normal. Julinho é um rapaz de 14 anos que tem um smart phone e quer ser arquiteto. No decorrer da conversa diz que aprecia o trabalho de José Forjaz, autor de vários projectos no país, incluindo a casa da sua Tia Clara, que vive em Maputo e apadrinhou Julinho. Falámos também com Nuhi, 15 anos, outro candidato a arquitecto, apadrinhado por duas madrinhas da Helpo. Tanto Nuhi como Julinho têm postais desenhados por si à venda numa loja local. Para conseguir alguns meticais extra Julinho faz tours turísticos pela ilha e Nuhi vende uns bolinhos chamados gulamo. Ikbal, de 7 anos, foi o terceiro entrevistado do almoço, a mãe trabalha num supermercado e o pai é psicólogo, mas o filho ainda não escolheu uma profissão futura. E presidente da república? “Não. Ser presidente é muito arriscado” remata Julinho.

Entretanto apareceram vendedores de peixe e marisco e João Salavessa, vitivinicultor na região de Castelo Branco e diretor da faculdade Ciências Sociais e Humanas da Universidade Lúrio, que nos levou até à Sala Girassol, onde estava marcada uma pequena conversa sujeita ao tema ‘Futuros Presidentes e Redes Sociais’. Os palestrantes, à falta de melhor, fomos nós, Luís Mileu e Ricardo Henriques, com uma introdução de Carlos Almeida, o coordenador nacional da Helpo que foi ‘obrigado’ a criar uma conta de Instagram há três dias.

Passo seguinte, dar um verdadeiro passeio a pé (o primeiro da viagem) para aproveitar a luz do fim do dia. Entre as ruínas de uma casa, encontrámos uns miúdos a praticar capoeira. Nas traseiras estava a decorrer um jogo de futebol, que por vezes parava para discussões entre jogadores. Um rapaz que andava de um lado para o outro e aparentava ser árbitro, afinal era o comentador in loco. “A bola está em Fininho que passa para Sayde e é gooooooooolo! Golo! Golo! Golo!”

Perdi-me dos meus companheiros de viagem, mas rapidamente arranjei outros dois, Abdul e Abdul. Estes miúdos fizeram-me perguntas e companhia na minha caminhada. À terceira frase, Abdul já dizia “leva-me contigo para Portugal”, à oitava, convidou-me para conhecer a sua família.

A noite caiu e foram poucas as luzes que se acenderam no bairro de Macuti. Quando a Fortaleza de São Sebastião foi construída pelos portugueses foi deste local que retiraram a pedra. Passados cinco séculos e passadas as chuvas, estas casas precárias ficam sempre alagadas. No Macuti começaram a juntar-se mais crianças e já tinha um séquito de seis crianças atrás de mim. Após várias curvas à esquerda e à direita, em ruelas estreita e escuras, Abdul apontou para umas silhuetas sentadas no chão, à porta de uma casa sem mármores, veludos ou sofás em pele. Foi assim que conheci e cumprimentei a sua família.

Depois de encaminhar os pedidos de cadernos, maçarocas e óculos escuros para a próxima segunda-feira, no escritório local da Helpo, despedimo-nos com repetidos apertos de mão e regressei ao lado da ilha onde o m2 tem mais likes e hashtags.

Nota: Obrigado aos proprietários do Restaurante Relíquias por nos deixarem trabalhar no seu espaço muito para lá da hora de fecho.

A arte de bem receber

Entre o trabalho de ontem e o de hoje conseguimos visitar o Museu de Etnografia de Nampula, o único museu nacional moçambicano fora de Maputo. A exposição tem uma série de artefactos muito curiosos divididos por etnias e temas, mas a informação sobre as peças peca por ser demasiado genérica. O recepcionista, que acumulava ainda os cargos de vendedor de bilhetes, responsável pela loja do museu, segurança e guia, destrancou-nos as portas dos dois andares.

“Passatempo muito apreciado são os convívios onde se bebe, come e dança. Tocar alguns instrumentos musicais (em especial de corda, aerofone e lamelofones) é também um passatempo.” – lia-se na legenda de Jogos, Passatempos e Fumo. Na secção de rituais de iniciação o nosso guia apontou para uma pedra e informou “é um medicamento forniqueiro, para limpar as feridas”. No exterior do museu uma série de artistas esculpiam e vendiam a sua arte, quase igual à que encontrámos no interior.

A arte solidária da Helpo espalha-se por 37 centros de intervenção em Moçambique, que apoiam cerca de 16.000 crianças e jovens. Estes centros incluem escolinhas, escolas primárias, ludotecas, bolsas de estudo para o ensino secundário e um infantário provincial.

Esta manhã tínhamos no menu a visita a cinco centros de intervenção espalhados por três aldeias, Mahunha, Ilocone e Munimaca, todos na província de Nampula. Desta vez a viagem foi na companhia de Zainal, o construtor responsável pelas últimas obras de construção de salas de aula. Inês Faustino (veterinária e diretora de programa de Nampula) e Josefina Marau (médica e voluntária de curta duração) estavam à nossa espera na vila de Murrupula, bem como Sebastião (professor, animador e motard radical). Por causa das chuvas a estrada habitual ficou intransitável e Sebastião, numa moto de pneu fininho, foi à nossa frente, a derrapar na areia, para nos indicar o acesso alternativo às aldeias.

Nada nos tinha preparado para a recepção de Mahunha. Mães, pais, professores, anciãos e crianças mais velhas, todos em fila, começaram a cantar uma canção de boas-vindas, acompanhada de palmas e bater do pé. De seguida apertámos as cerca de 40 mãos direitas que se estenderam. Debaixo de uma cobertura com cadeiras para nós, bancos para os homens e esteiras para as mulheres e crianças, o professor Acácio fez as apresentações e leu um relatório.

Depois entrevistámos Estefânia Velasco, uma menina que não sabia a idade (mas o cunhado apareceu para dizer que tinha 10) mas gostava de ser professora. Porque sabíamos que ela gosta de cantar, insistimos “não preferes ser cantora?” “As professoras também são cantoras” disse ela.

Partimos para a próxima comunidade, mas Inês e Josefina ficaram para trás com outra missão, a distribuição mensal de sabão e alimentos para as papinhas (açúcar arroz, óleo, farinha de milho). Inês Faustino está com a Helpo há dois anos e explicou-nos o seu chamamento para o trabalho solidário assim “temos a sorte de nascermos onde nascemos. Achei que devia dar aos outros um bocadinho do que tive. Recebi de graça, dou de graça.” Quanto ao curso de veterinária só lhe é útil ao final do dia, quando, por hobby, dá consultas aos cães e gatos de Nampula.

Na escolinha de Ilocone fomos mais uma vez recebidos de forma solene. O animador Celso tinha a típica e impecável bata branca dos professores, mas desta vez uma pequena serpente verde bordada no bolso denunciou a origem farmacêutica da sua indumentária. Aqui entrevistámos Eva Bonito, uma criança de 18 anos com dois filhos. Quando lhe perguntei porque parou de estudar, ela riu-se e as duas razões, agarraram-se um pouco mais a ela.
Em Munimaca foi tudo mais rápido, mas o levantamento do nosso drone deixou os miúdos estupefactos. Despedimo-nos de Sebastião, com vontade de lhe oferecer uma moto de todo-o-terreno, e voltámos para a estrada. Os caminhos entre as escolas foram dos mais acidentados da nossa viagem, envolvidos por mato e campos de milho, com casas aqui e ali, umas de tijolo e outras de colmo. Se tudo correr bem Mahunha e Munimaca terão em breve três novas salas, respectivamente, construídas pela Helpo, Zainal e mão-de-obra voluntária.

No final do dia os dois 4X4 da Helpo regressaram com oferendas, duas galinhas, dois cachos XXL de bananas, várias abóboras, uma caixa de maçarocas de milho e muitos sorrisos. É trabalho mas parece um convívio onde se bebe, come e dança.

Falta no livro de ponto

Quantos anos tens? Quantos quilómetros fazes até à escola? A que horas te levantas? Quantos irmãos tens? O que é que queres ser quando fores grande?  Foram várias as crianças que responderam “não”, “não sei” ou encolheram os ombros. Não é má vontade, é falta de festas de aniversário a marcarem a passagem dos anos, é falta de conta-quilómetros nos pés, é falta de relógios, é falta de precisão na pergunta (irmãos vivos ou mortos? De sangue ou rebocados?) e é falta de uma visão para além do futuro-mais-que-próximo. Para quê fazer planos para metas tão distantes?

Pelas escolas onde andámos parece não existir a idade dos porquês. Crianças que dizem preferir português, geografia ou história às outras disciplinas, não são capazes de explicar a razão das suas preferências. “Porque sim” aqui é resposta. Por vezes penso que a barreira pode ser a língua, mas temos tido professores que fazem traduções para emakhuwa e shimakonde, mas a atitude não muda. Claro que a nossa amostra é muito limitada e encontram-se exceções à regra. Há crianças da escolinha com um discurso mais fluido do que estudantes, já adultos, a caminho da 12ª classe.

Numa conversa com uma criança de 12 anos extremamente embaraçada, cabisbaixa e monossilábica, tive de perguntar ao professor o porquê daquele estado. A resposta foi “É a primeira vez que ele está a falar com um mucunha”. Mucunha é o nome que dão aos brancos. O problema afinal, começa por ter um marciano no terreno.

Nesta manhã de quinta-feira fomos visitar a Escola de Teacane. Em Nampula só existe piso de alcatrão na malha mais central da cidade, à medida que nos vamos afastando, as estradas são todas de terra batida com pequenos canyons devido à época de chuvas. A pouco e pouco a estrada começa a deixar de ter barbearias e bancas de reparação de telemóveis e começa a ter um cenário campestre, só com árvores e um conjunto de rochas no horizonte a que deram o nome de cabeça do velho.

Na chegada à escola fomos recebidos pelo professor Hortênsio que nos encaminhou até à sua seleção de alunos para as entrevistas. Um destaque: António, de 19 anos.  Quando acabar de estudar quer ser doutor e nos seus tempos livres só faz duas coisas “brincar e chegar o tempo que falta para ir na escola”. Sim, há alunos com relógios alinhados com o toque da escola. Um pormenor: o toque da escola é um círculo de metal (parte de uma jante?) pendurado numa árvore com meio alicate a servir de badalo. Houve ainda tempo para uma oferta vinda dum jogador português, Fernando Varela, que joga no equipa  grega PAOK, 16 t-shirts para os jogos de futebol da escola.

De Teacane até à Escola Polivalente de São João Baptista de Marrere foi um pulinho e 437 canyons, sem passar na casa de partida e sem sairmos do distrito de Nampula. O padre Pedro, diretor desta escola que também possui internato, esperava por nós para almoçar. Numa longa mesa com toalha de capulana, serviram-nos um arroz de marisco e todas as opções de bebida, água, sumos de fruta, vinho branco sul-africano e um vinho tinto alentejano de 2013 que, a julgar pelo pó, estava guardado para uma ocasião especial. A Inês Faustino, directora de programa de Nampula, almoçou connosco e o padre Tobias juntou-se mais tarde. Falou-se de educação, da visita do ministro português da defesa a Nampula, de piratas informáticos, dos142 apadrinhados Helpo da escola e da importância do ensino técnico-profissional.

Depois do almoço fizemos mais uma ronda de entrevistas, envolvidos pelos livros da biblioteca. Wilson, de 17 anos, veio com a mãe. Está na 10ª classe vai seguir medicina. Mais à frente diz que quer ser marinheiro, apesar da mãe nos garantir que ele não sabe nadar. Marinheiro porquê? Encolheu os ombros e sorriu.

Máquinas de Futuro

Hoje foi o dia de deixar a casa de Pemba e ir para a casa em Nampula. Trocámos uma pequena cidade à beira-mar e chegámos à terceira maior cidade Moçambicana, bem no interior da província mais populosa do país.

Nampula, como qualquer cidade, tem muitas pessoas à procura de oportunidades, algumas trabalham, algumas pedem dinheiro (‘estou a pedir cinco’ é uma frase comum há vários anos que teima em resistir à inflação) e algumas roubam o que aparecer, seja um telemóvel ou um pneu sobresselente de um carro.

A única paragem comunitária que fizemos foi na escolinha de Micolene, aldeia de Namialo, no distrito de Meconta, um projecto da Helpo que nasceu literalmente do chão. Com uma máquina de construção de tijolos, a Hydraform, têm sido edificadas várias escolas. Terra vermelha com uma pitada de cimento e criam-se tijolos machos e fêmeas com poder de encaixe.

Se mamã é o nome carinhoso que os moçambicanos dão às mulheres que sustentam toda a sociedade, escolinha é a palavra que designa a pré-primária que, como se adivinha, é a máquina fundadora de tudo, incluindo de futuros presidentes. As crianças que passam pela escolinha aprendem a base do português e, quando chegam à primária, já dominam o básico para apreender tudo o resto.

Falámos com várias crianças, de idades e percursos muito diferentes. Jerónimo, de 19 anos, tem 7 irmãos, um padrasto e uma mãe zangada porque o filho insistiu em estudar. Este jovem fala da Helpo com uma emoção agradecida, tem sido ajudado em várias fases da sua vida e, enquanto estuda para seguir medicina, está a preparar-se para abrir uma barbearia que lhe permitirá manter-se independente. Jerox Barbearia será o nome do negócio e para tratar da marca, talvez tenha de falar com Sérgio, aluno da 10ª classe que faz música e adora desenhar. A t-shirt que traz vestida é da sua autoria, Gang Relachado é o seu projeto musical que, infelizmente, não tem músicas online. Sérgio gostaria de ser pintor, um futuro Malangatana. Estes dois rapazes começaram por ser apadrinhados pela Helpo, a partir da escola primária ali ao lado, e continuam a estudar na escola secundária.

Márcia Saíde, filha de Saíde, o animador e director da escolinha, tem 12 anos e quer ser médica, mas a julgar pelas suas capacidades vocais (cantou para nós uma música dedicada à Helpo) talvez devesse seguir a carreira de Dama Mamo, a cantora favorita de Márcia (ela tem músicas online).

Sandra Albuquerque Lopes, menina albina de 3 anos, ainda não lê mas gosta de folhear livros, além de brincar com carros e brincar com Legos. Sandra é muito diferente da maior parte das crianças que já conhecemos, não tanto por causa da pigmentação da sua pele, mas devido ao seu pai, funcionário público, ter um ordenado folgado.

Em Moçambique, na Tanzânia, nos Camarões e noutros países africanos os albinos têm sido perseguidos e assassinados para que os seus orgãos mutilados possam ser usados em rituais de feitiçaria e poções mágicas. Há quem acredite que a ‘poção do albino’ traz riqueza e as partes dos corpos podem valer milhares de dólares no mercado negro.

Albuquerque Almirante Lopes garantiu-nos que ali onde vivem, essas crenças já não existem e, a julgar pelo estilo, descontração e felicidade da sua filha, ela terá um futuro muito risonho pela frente.

As mamãs moçambicanas são o pilar do lar, vão à machamba, vão à água, vão ao carvão e muitas vão sobreviver aos maridos e educar os filhos sozinhas. Dos homens espera-se apenas que tragam para casa mais dinheiro que problemas. A  propósito da nossa visita à comunidade de Chinda, reuniram-se as condições para conhecermos em carne e osso oito mamãs Macondes, oito pilares de família e de uma série de tradições em vias de morrer.

De caras tatuadas, envolvidas em capulanas e com piercings no lábio, Cristina Tomás, Virgínia Nachomba Nabualo, Regina Chela, Regina Taoala Magulia, Ernestina Manamba Liava, Ernestina Tomé, Maria Simon Tobias e Equareta Samodja estavam à sombra e à nossa espera.

Os Macondes são uma etnia que se divide entre a Tanzânia, o Quénia e Moçambique, onde se concentram no planalto de Mueda, província de Cabo Delgado. O povo esteve mais ou menos protegido de guerras, negócios de escravos e outras influências externas até aos anos 20 do século passado, quando os portugueses conseguiram penetrar no mato grosso que envolvia a sua cultura. Esta ‘descoberta’ tardia terá contribuído para preservar uma estética elaborada, visível nas tatuagens, máscaras, esculturas de madeira e danças Macondes, muito diferente das existentes no resto do país.

No dia 16 de Junho de 1960 o Massacre de Mueda terá influenciado a fundação, dois anos depois, da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), enquanto movimento nacionalista com o propósito de acabar com o domínio colonial português. É curioso que parte do financiamento da guerrilha da FRELIMO nasceu do dinheiro das vendas de esculturas Macondes.

Homens e mulheres Macondes tatuam a cara e o corpo para comunicarem a sua etnia e poderem participar em rituais de iniciação. Todas estas Mamãs, por volta dos 12 anos, passaram por um doloroso processo de escarificação que decorou os seus corpos com figuras geométricas que procuravam atrair fertilidade e apaziguar as relações com os espíritos.

A preocupação com datas e anos não existe para estas mulheres. Nasceram há muito tempo, casaram-se na idade para casar, tiveram os filhos que tinham de ter e não fazem ideia das suas idades. O casamento não foi uma festa para elas, mas sim para a família que recebia o lobolo (dote) da família do marido. Era comum oferecer-se gado, um arco e flechas ou uma metralhadora e, mais recentemente, dinheiro. Quando repito a palavra maconde que designa o piercing que têm por cima do lábio superior, todas as mamãs se riem da minha pronúncia atabalhoada.

Estes pilares carregam na pele a arte dos Macondes e a sua cultura está intimamente ligada ao nascimento duma nova nação, mas adivinha-se no olhar agridoce destas Mamãs que carregar água para casa e tratar dos filhos foi e será sempre o mais importante para elas.

 

Mini dicionário Maconde para Tótós

ajala – mãe

assante niculambolela – muito obrigado ou ‘muito agradecido eu’

ciputu – ritual de iniciação das meninas Macondes que durante vários dias recebem formação sobre sexo, casamento e outras atividades.

dinembo – desenho ou decoração; palavra usada para ‘tatuagem’

jujumunu – mãe

liguilanilu – palavra que significa ‘compreendemo-nos todos’, o mesmo que cooperativa

lipiko – máscara

mali akulombela – lobolo; dote de casamento

mama – mãe

mapiko – dança tradicional dos Macondes; mapiko também é o nome dos bailarinos mascarados e da sua máscara

mpingo – pau-preto, madeira usada nas máscaras e esculturas Macondes

ndona – piercing em pau preto que as meninas aplicam entre o lábio e o nariz para assinalar que estão em idade para casar

shimakonde – língua maconde falada por 900 mil pessoas em Moçambique

wakudulumbuka – maluco; tótó

wakumanya – inteligente

yadi – tradição

 

Banhos de multidão e de realidade

Chegámos à Escola de Mahera, a 120 km de Pemba, por volta das 9h30 e o coro Helpo voltou a ouvir-se. Também se repetiu o calor abrasador – 35 graus com humidade de 70% – e a recepção solene com professores orgulhosos e cadeiras de plástico em semicírculo. Cumprimentámos toda a gente e fomos embora, não por falta de educação, mas porque tinha sido acordado falar com a família de alguns afilhados, na sua própria casa.

Atravessámos a estrada e deparámo-nos com um cenário semelhante, numa versão mais simples e ecológica. Quatro bancos de verga esperavam pelos traseiros dos doutores, numa clareira entre casas de pau a pique. Estas habitações são construídas com um xadrez de canas, revestidas a barro e com telhados de capim. Trocar estas coberturas por chapa de zinco é um sinal de estatuto e, claro, de maior resistência às chuvas.

O doutor Carlos Almeida, numa observação acutilante, própria de quem coleciona milhas nas estradas das províncias de Cabo Delgado e Nampula, contou que “as pessoas no mato vivem exatamente como há cem anos, com três exceções: todos os adultos têm telemóvel, toda a gente tem baldes de plástico e todos têm acesso a roupa ocidental.” É o chamado vestuário de calamidades, restos de coleção, oferecidos em alturas de calamidades naturais e de guerras desnaturadas.

Curiosamente, numa conversa de café, ouvimos uma teoria que defendia o balde de plástico enquanto símbolo da revolução moçambicana e não a metralhadora AK-47, que figura na bandeira do país a cruzar-se com uma enxada. Antes da leveza dos baldes de plástico subirem à cabeça das mamãs moçambicanas para transportar água potável ao longo de quilómetros, a solução anterior eram bilhas de barro que, mesmo vazias,  pesavam demasiado.

Cumprimentámos a mamã Cristina Zacarias e a sua mamã, Varnaia Muaueheke, que nos apresentaram a descendência por ordem decrescente. O mais velho, com 18 anos e o mais novo, de colo. Falámos com Estefânia, Josefina, Dulce (uma vizinha) e Laura. Esta última foi das primeiras meninas a surpreender-nos com o sonho de uma profissão diferente: apresentadora de televisão. O seu sorriso de cara cheia, diferente da vergonha com que nos presenteiam habitualmente, os vestígios de purpurina à volta dos olhos e os dois anos que viveu em Maputo com um tio, ajudam a compor o seu olhar mais ambicioso.

Próxima paragem: banho de alunos na escola de Impire.  Depois da Helpo ajudar a construir mais seis salas de aula, o ministério da educação aumentou a escolaridade da 7ª até à 10ª classe. Esta é a única escola Helpo com energia eléctrica e tem uma biblioteca invejável, com mais de 2 mil livros, em português, inglês, francês e (apenas) dois em emakhuwa, a língua indígena mais falada em Moçambique.

De regresso à cidade ficámos a conhecer um projeto ambicioso e delicioso, a Ludoteca Helpo da Biblioteca Pública Provincial de Pemba, provavelmente um dos espaços didáticos gratuitos mais bem sucedidos do país. As crianças que aqui vêm, aprendem com calma e método, à velocidade do aluno mais lento. Teatro, poesia, educação visual, francês, inglês e cidadania são só algumas das matérias que o animador Manuel Cipriano explica, segundo uma pedagogia desenvolvida pelo próprio.

As crianças que falaram connosco no local vieram comprovar que está tudo certo. Dara foi a criança mais faladora e esclarecida até agora. Já quis ser empresária, mas agora ambiciona ser engenheira electrónica. Na verdade já tem um part-time, apresenta dois programas infantis na Rádio Moçambique, o Correio Infantil e o Cantinho da Alegria. Nelson declamou-nos um poema. Omar está a caminho de ser doutor de Hospital. Berta gosta de desenhar, mas vai seguir engenharia civil. Cidália imagina-se futura professora e quando lhe perguntamos qual foi o momento mais feliz da sua vida, responde sem hesitar “16 de Junho, o dia da festa da Ludoteca”.

Crianças e Cocos

Nóque nóque às 5 da manhã, partida trinta minutos depois com trezentos quilómetros de caminho pela frente. Florêncio, assessor de coordenação da Helpo, fez a viagem connosco. Este moçambicano de 25 anos nascido em Pemba era um aluno sem pais e sem aproveitamento, mas com o apoio da sua madrinha e da Helpo, formou-se em Maputo e hoje dá formação de pedagogia a professores, além de ensinar inglês.

A viagem para lá e para cá foi praticamente non-stop, com paragens técnicas para comprar cocos a vendedores-ambulantes, regar imbondeiros e tirar fotografias ao corrupio constante à beira da estrada.

Por volta das 9 horas, com o calor já a apertar, chegámos à E.P.C. (Escola Primária Completa) de Chinda, distrito de Mocímboa da Praia. Quando as crianças da escola reconheceram a carrinha cercaram-nos e começaram a entoar “Helpo! Helpo! Helpo!” com um entusiasmo impressionante.

À nossa espera estava o diretor da escola, Eduardo Lucas Docta, oito mamãs macondes e as crianças que iriam ser entrevistadas para o projeto Futuros Presidentes.

Docta acumula a direção com aulas de inglês, de matemática, de ciências naturais e de educação física, mas é também o animador social da Helpo, ou seja, é o responsável por identificar as necessidades dos alunos, por canalizar os apoios e por ajudar a escrever as cartas aos padrinhos.

As mamãs moçambicanas são o pilar do lar, vão à machamba, vão à água, vão ao carvão e muitas vão sobreviver aos maridos e educar os filhos sozinhas. Dos homens espera-se apenas que tragam para casa mais dinheiro que problemas. As mamãs macondes estavam ali a pedido da Helpo para nos ajudar a contextualizar a cultura local com exemplos de carne e osso de uma tradição que está a esmorecer, mas quanto às mamãs iremos falar delas à parte.

Enquanto nos apresentava as crianças selecionadas, Docta falou-nos da importância da educação, referindo “uma visão ampla do mundo” e a capacidade de “tirar a mancha da cabeça das pessoas”. Primeiro falámos com Ausse que também responde pela alcunha de ‘Junho’. O pai desta criança de 12 anos passa meses na machamba e a sua madrasta não lhe dá muita atenção, mas apesar de tudo, Junho é bom aluno o ano inteiro e quer, genuinamente, ser Presidente da República. A pré-campanha começa aqui. Ana Samuel tem 13 anos e gostaria de vir a ensinar, tal como Frenque e José Jerónimo. Se tudo correr bem Mónica será um dia enfermeira, em Mocímboa da Praia. E porque não em Pemba ou Maputo? Mónica nunca tinha pensado tão longe.

Ao descobrirmos os sonhos humildes destas crianças (com uma excepção) é inevitável não pensar no poema ‘O Guardador de Rebanhos’ do bucólico Alberto Caeiro. “Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não, do tamanho da minha altura”. A maioria destes miúdos nunca foram para além da aldeia-encruzilhada mais próxima, portanto, quando se imaginam grandes, sonham algo próximo e à sua escala.

Cada um destes 472 alunos passará aqui três horas por dia, durante sete anos, da primeira à sétima classe, mas findo esse tempo muitos não vão saber ler nem escrever.

A missão da Helpo e dos professores espalhados pelo país é mostrar a todos os futuros adultos que podem ver para além dos seus olhos e, um dia, ser do tamanho do universo.

Noite dentro, noite fora

Domingo foi dia de praia e de corte de energia para manutenção. A EDM (Eletricidade de Moçambique) interrompeu o serviço em Pemba, o que democratiza um pouco a vida da população, há mais gente sem ar condicionado, sem televisão, sem internet e sem luz em casa. Claro que os ricos e os hotéis têm todos geradores de apoio.

Quando o dia chegou ao fim as luzes artificiais voltaram a tempo para recortarem as figuras que não dormem. Há sempre alguém à espreita ou em trânsito. Da rua mais esconsa, da vereda mais perdida ou da porta mais esquecida, surgem constantemente crianças e adultos, pessoas que trabalham, pessoas que se divertem e pessoas que estão simplesmente cá fora.

De dia ou de noite, aqui a rua parece mais pública do que ali, na Europa.

Um domingo como outro qualquer

Domingo é o dia dos moçambicanos irem à praia. O único dia.

A caminho de Paquitequete, o único bairro com moçambicanos autóctones no tempo em que a cidade de Pemba se chamava Porto Amélia, passámos de carro pela praia de Hinos e deparámo-nos com uma incrível enchente de pessoas. Era quase impossível ver a areia.  Como não tínhamos comunidades para visitar, fizemos o mesmo. No entanto o nosso cicerone levou-nos a uma praia menos populosa, Murrébuè, 12 km a sul de Pemba.

O ponto de entrada para a praia foi o restaurante Il Pirata, que está na mão de Susanna, uma simpática italiana de Milão. Qualquer automóvel de cidade desapareceria numa das crateras do caminho de terra batida. Sem um 4X4 seria impossível lá chegar.

Numa baixa-mar que parecia estender-se até Madagáscar, com poças de água azul turquesa e areia em tons de paisagem lunar, era quase impossível ver pessoas.

No entanto, após andarmos alguns minutos encontrámos várias crianças a pescarem marisco e malhação para comer. Malhação é um peixe pequeno, fácil de apanhar quando fica preso nas poças de marés. Este nome é apenas o primeiro da aula de biologia marinha de hoje. Um dos miúdos entretinha-se a partir búzios para tirar os animais do interior. Segundo um informador local, tratava-se de txotxopué. O Google não confirma nem desmente. Na areia encontrámos cascas de formato triangular com aspecto de escamas gigantes e, aparentemente, é um molusco tipo mexilhão que faz um óptimo arroz e pode chamar-se makassa ou mbare.

De regresso à estrada esburacada apercebemo-nos de um esquema mais de engenhosos do que de engenheiros. Cada vez que um carro se aproximava, uma criança de pá em riste começava a mandar pazadas de terra vermelha para os buracos, enquanto três ou quatro amigos juntavam as mãos em conchinha para pedirem um donativo por tão importante serviço rodoviário.

Passámos por uns cinco grupos destes rapazes, sempre estrategicamente à sombra, e Carlos, ao volante, contou-nos o problema de recompensar o brilhantismo deste esquema com dinheiro. “Estes miúdos estão aqui a um domingo e ficam todos contentes se ganharem uns meticais, mas quando isso acontece começam a pensar, ‘ora bem, eu na escola nunca recebo meticais, mas na estrada até posso ganhar, portanto vou deixar de ir à escola e venho para aqui todos os dias’ – o que é tramado.”

 

A reboque de Carlos e Maria

Depois de 13 horas a voar no percurso Lisboa-Maputo-Pemba e de menos de meia hora de sono, chegámos enfim ao nosso destino, à capital da província de Cabo Delgado e um dos locais onde a Helpo está estabelecida. Do lado de lá do tapete das bagagens esperava-nos Carlos Almeida, o coordenador nacional da O.N.G. em Moçambique e o nosso homem no terreno. Quem também nos recebeu calorosamente foi a humidade implacável.

Na casa da Helpo, a cozinheira e faz-tudo Maria Clara ultimava os preparativos para o almoço. Depois da bela refeição fomos de pickup até sua casa, para conhecer os seus filhos, crianças apadrinhadas pela Helpo.

Maria Clara foi a mais nova de cinco irmãs e a única que não engravidou. Uma das irmãs morreu e Maria passou a tomar conta dos 9 filhos deixados para trás. Depois perdeu uma sobrinha e ganhou mais 4 filhos a seu cargo. Outros dois órfãos, de uma segunda sobrinha, parecem estar igualmente a caminho da vida desta cozinheira de mão e casa cheia.

Sentada no pátio de sua casa, Maria Clara usa a expressão “reboquei os filhos” para falar das várias vagas de heranças de crianças. Sobrinhos, netos ou filhos, o parentesco vai mudando nas conversas, as idades também são voláteis, mas apesar da confusão, ninguém é esquecido na hora do mata-bicho, da papa, do arroz e da chima (farinha de milho).

Dizem-nos que Maria Jonito é uma das crianças mais velhas, está deitada numa cama, com um ar cansado, provavelmente devido à malária que voltou a contrair. Os restantes irmãos, Nelson Momade, Edmilson mais velho, Telvino António, Vasco, António, Edmilson mais novo, Lúcio, Maria Esperança e Marta, seguem, ora as ordens de Maria ora as sugestões de Carlos.

Fazemos perguntas sobre sonhos de profissões futuras e tiramos retratos, mas há muita vergonha nas respostas. Marta não nos empresta sorrisos, nem com a ajuda de Carlos, que vai repetindo “sorri” na língua macua. Othieke! Clic! Othieke! Clic! Othieke! Clic! Clic! Clic! O Edmilson mais novo é o oposto, quando não está a soprar no seu apito de árbitro, está a espalhar alegria e poses de peito cheio.
A sua mãe que ainda há pouco tempo era uma das crianças, diz que ele está sempre pronto para ir à escola, até ao domingo.

Foi assim o primeiro dia na estrada dos Futuros Presidentes.